O impacto oculto dos tumores digestivos: Nmeros e curiosidades

Dr. Felipe Jos Fernndez Coimbra, Cirurgia Oncolgica

Publicado em 25/01/2024 - Atualizado em 22/04/2024



Como médico e cirurgião oncológico, especializado em cirurgia do câncer do sistema digestório, encontro-me em uma posição privilegiada para compartilhar insights sobre este tema complexo e multifacetado. Os tumores digestivos, embora sejam um tema sério, carregam consigo uma série de curiosidades e avanços que merecem ser compartilhados. Vamos mergulhar nesse universo, descomplicando termos e apresentando as últimas novidades.

A Surpreendente Prevalência

Você sabia que os tumores digestivos estão entre os tipos de câncer mais comuns globalmente? Estima-se que representem cerca de 10% de todos os diagnósticos de câncer. A magnitude desses números realça a importância de discutir esse assunto. No Brasil, por exemplo, estatísticas recentes apontam que tipos específicos como o câncer de estômago e de cólon estão entre os mais frequentes e em 2023 o INCA anunciou a inclusão dos tumores de fígado e pâncreas no registro dos 10 tumores com maior mortalidade, por se apresentarem pela primeira vez entre os de maior letalidade, seguindo tendências europeias e norte-americanas.

Variação Geográfica

Curiosamente, a incidência de tumores digestivos varia significativamente entre diferentes regiões do mundo. Por exemplo, o câncer de estômago e fígado são mais comuns em países do Leste Asiático, sendo este último muito frequente, também, pela grande incidência de infecções como a hepatite B na África subsaariana; enquanto os países ocidentais registram maiores taxas de câncer de pâncreas, tumores da transição esôfago-gástrica e cólon. O papel da alimentação, o consumo de ultra processados, a obesidade, parecem estar associados.

Avanços e Desafios no Diagnóstico

Apesar dos avanços tecnológicos, o diagnóstico precoce ainda é um desafio. Muitos tumores digestivos são silenciosos e só apresentam sintomas em estágios avançados. Por isso, a conscientização sobre sinais e sintomas, como perda de peso inexplicada e dor abdominal persistente, é crucial. Destaco o papel vital de entender a epidemiologia.

Com os padrões de ocorrência desses tumores e o reconhecimento de sintomas suspeitos por médicos e população.

O Impacto da Dieta, Hábitos e Estilo de Vida

Estudos mostram uma forte correlação entre dieta, estilo de vida, hábitos e risco de tumores digestivos. Dietas ricas em alimentos processados e pobres em frutas e vegetais estão associadas a um maior risco. Além disso, o tabagismo e o consumo excessivo de álcool, o sedentarismo e a exposição profissional ou ambiental a substâncias tóxicas, por exemplo, também são fatores de risco significativos. Embora não possamos controlar todos os fatores de risco, mudanças como dieta saudável, atividade física regular e manutenção do peso ideal, têm um papel relevante na prevenção desses tumores.

Tratamento Personalizado

No tratamento dos tumores digestivos, estamos entrando em uma era de personalização. Terapias são cada vez mais direcionadas ao perfil genético específico do tumor, o que resulta em tratamentos mais eficazes e menos tóxicos. A imunoterapia, que utiliza o próprio sistema imunológico do paciente para combater o câncer, tem mostrado resultados cada vez mais promissores.

Como especialista em cirurgia oncológica, reconheço a cirurgia como fundamental na luta contra o câncer digestivo, oferecendo a melhor oportunidade de cura quando realizada de forma adequada e oportuna. No entanto, é preocupante que, segundo estudos médicos, apenas aproximadamente 30% dos pacientes recebam esse tratamento em um estágio inicial o suficiente para serem considerados para cura. A detecção tardia, frequentemente em estágios avançados da doença, faz com que as opções de tratamento se inclinem para métodos sistêmicos, como a quimioterapia. A evolução da cirurgia minimamente invasiva, incluindo técnicas laparoscópicas e robóticas, tem melhorado a precisão e reduzido a invasividade dos procedimentos cirúrgicos, representando um avanço significativo na qualidade do tratamento oferecido aos pacientes com câncer digestivo.

A Esperança na Prevenção e Educação

Muito se fala de prevenção, que é sempre mais eficaz que o tratamento, em vários aspectos. Primeiro porque há uma relação direta e proporcional entre a precocidade do diagnóstico e as chances de cura, onde se pode detectar tumores menores, menos invasivos e localizados, em que as chances de cura são na maioria das vezes superiores a 90%. Portanto, a máxima “Quanto antes Melhor” nunca foi tão verdadeira na oncologia! Possibilitando um tratamento menos agressivo, mais eficaz e com menos sequelas, sem falar no menor custo de vida e para o sistema de saúde, quer seja público ou privado.

A educação à população e aos médicos generalistas são outros aspectos-chave para melhorar os resultados, como, por exemplo, sobre uma dieta saudável, a prática regular de exercícios físicos e a realização de exames periódicos podem reduzir significativamente o risco desses tumores entre 30 e 50%. Porém, talvez aqui uma curiosidade inesperada para muitos, a maioria dos diagnósticos de câncer não são feitas por médicos que tratam câncer, tampouco pelos exames de rastreamento, mas sim pela suspeita e investigação de sintomas, feitas por médicos generalistas, portanto, o conhecimento e atualização para o reconhecimento dos sintomas iniciais de câncer e a atualização de médicos no diagnóstico precoce, o que chamo de OLHAR ONCOLÓGICO, são fundamentais para modificar a realidade do diagnóstico tardio na maioria dos tumores. A educação continuada da população e de médicos dos principais preceitos em oncologia é fundamental.

Por fim, o campo dos tumores digestivos é vasto e complexo, mas a compreensão de sua epidemiologia e os avanços no tratamento oferecem esperança. Com mais conscientização e pesquisa, podemos aspirar a um futuro em que o impacto desses cânceres seja significativamente reduzido. Espero que este artigo tenha iluminado um pouco deste universo complexo, ressaltando a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento inovador. A conscientização é o primeiro passo para uma abordagem proativa em relação à nossa saúde digestiva.

 

Dr. Felipe José Fernández Coimbra - CRM 93020 RQE 30634

Cirurgião Oncológico, MD, MsC, PhD.

Diretor do Depto. de Cirurgia Abdominal - Head Tumores Gastrointestinais Altos e HPB.

AC Camargo Cancer Center, São Paulo, Brasil.

Presidente Americas Hepato-Pancreato-Biliary Association - AHPBA - 2019-20.

Presidente Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica - SBCO - 2015-17.

SBCO, CBC, IHPBA, SSO, FACS.

Diretor Instituto Integra Saúde.

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