Pesquisa e Tratamento do Câncer com as “Car-T-Cells”

Prof.Dr. Carmino Antônio de Souza, Hematologia e Hemoterapia

Publicado em 04/04/2022 - Atualizado em 06/10/2022



É com prazer e muito honrado que passo a integrar o grupo de articulistas da plataforma BRAZIL HEALTH, parceira do grupo ESTADO DE SÃO PAULO que reúne grandes nomes da medicina brasileira e gera, através deles, conteúdo de qualidade e credibilidade na complexa área da saúde.

Fiz uma reflexão para escolher um tema de fosse de absoluta importância dentro do cenário científico e que estivesse na fronteira do conhecimento. Além disso, este tema deve, nos próximos anos, mudar práticas médicas e que pode dar vida e qualidade de vida para pacientes portadores de neoplasias hematológicas que hoje, praticamente, não têm possibilidade terapêutica. Assim, vou discutir sumariamente os tratamentos imunológicos que utilizam as células de derivação T (linfócitos-T) com receptores antigênicos quiméricos (Car-T-Cells).

Talvez possamos comparar este momento ao vivido nas décadas de 70 e 80 com a introdução e difusão dos transplantes de medula óssea (TMO), hoje consolidados e acessíveis no Brasil tanto no sistema público como privado. Os resultados clínicos com o TMO no Brasil são comparáveis aos do primeiro mundo e isto é resultado de planejamento e treinamento de profissionais especializados e compromissados com a especialidade e participação de instituições universitárias e de excelência na assistência à saúde. 

A inovadora terapêutica com as Car-T-Cells tem demonstrado extraordinário potencial no tratamento de tumores hematológicos particularmente nos linfomas agressivos e na leucemia linfoblástica. Os limites de sua utilização ainda não estão estabelecidos, mas há grande entusiasmo em toda a comunidade científica com suas potencialidades1. Os princípios técnicos envolvidos nesta terapêutica e apresentado na figura abaixo, são compreensíveis aos pacientes e aos profissionais envolvidos, mas a sua operacionalização bem como o seu acesso e sustentação econômica ainda são bastante restritas.

De maneira muito sumária, podemos descrever o procedimento da seguinte maneira: As Car-T-Cells são geradas a partir da coleta de leucócitos (glóbulos brancos) e seleção das células linfáticas de derivação T do próprio paciente através de procedimento de aférese (máquina que coleta o sangue total e separa os leucócitos do paciente). Estas células T são enviadas aos laboratórios de processamento e manipulação genética onde são reprogramadas para atingirem as células alvo tumorais do próprio paciente. Este processo é extraordinário pois isola e ativa os linfócitos-T do próprio paciente. As células são então modificadas por método de engenharia genética utilizando vetores virais que transportam os DNA das Car-T formando uma célula modificada e que tem atividade contra o tumor alvo do tratamento. Em seguida, estas células são expandidas e devolvidas à origem para serem reinfundidas no próprio paciente, preparado clínica e imunologicamente para receberem o procedimento.

Todas essas etapas, logística, técnica e estrutural são complexas e ainda onerosas. Esta terapêutica está implantada em inúmeros países do primeiro mundo e milhares de procedimentos já foram realizados. No Brasil, grupos de pesquisadores têm trabalhado para ter o domínio das técnicas e estrutura necessárias à manipulação gênica.

Do ponto de vista da coleta dos leucócitos pelos métodos de aférese, da aplicação clínica e cuidado aos pacientes, tenho a convicção que estamos preparados nos Centros que hoje já realizam os TMO. Entretanto, a logística de envio das células, manipulação, expansão e retorno ainda é inatingível a quase totalidade de nossa população. Atualmente há cinco produtos de células CAR-T aprovados pelo FDA e este ano a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o primeiro registro sanitário para uso comercial das células CAR-T no Brasil para pacientes com Linfoma Difuso de Grandes Células B e Leucemia Linfoblástica na infância e adultos de até 25 anos, recidivados e/ou resistentes.

A Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH), desenvolveu e publicou o primeiro Consenso Brasileiro no tema, deixando claro seu compromisso em Editorial recentemente publicado em sua revista científica 2. A Unidade de Transplante de Medula Óssea e Terapia Celular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP) realizou em 2019 o primeiro tratamento de um paciente com células CAR-T no país.

As entidades que representam a especialidade têm promovido eventos e travado grandes e importantes discussões no sentido de avaliar e viabilizar a introdução do procedimento no Brasil de forma a mais equânime possível tanto no sistema público como privado. Este não é e não será um processo fácil, rápido ou barato. Temos a expectativa de que poderá levar alguns anos até que se implante definitivamente no país. Exigirá que decisões sejam tomadas e que possam ser as mais acessíveis, tecnicamente sustentáveis e com maior probabilidade de êxito.

Eu pessoalmente estou muito entusiasmado com este momento e todo o processo de discussão e de implantação no Brasil. Vejo que há um enorme compromisso com a qualidade e segurança buscando os caminhos que possam garantir a sustentabilidade econômica e assistencial deste processo. As mais importantes instituições de ensino, pesquisa e inovação do país estão juntas na busca dos caminhos que possam viabilizar a introdução desta nova modalidade de tratamento do câncer e doenças genéticas no Brasil. Enfim, temos uma extraordinária fronteira da medicina em desenvolvimento e implantação. Vamos todos com seriedade e dedicação tentar trazer o quanto antes esta modalidade de tratamento ao nosso país.  

1 - June CH and Sadelain M: Chimeric Antigen Receptor Therapy (Frontiers in Medicine – review article). N Engl J Med 2018; 379:64-73. DOI: 10.1056/NEJMra 1706169  

2 - Editorial: The Brazilian Association of Hematology, Hemotherapy and Cellular Therapy seeks the implementation of , and access to, the CAR-T cell tretament in Brazil, Hematology Transfusion and Cell Therapy (ahead of print - 2021) - https://doi.org/10.1016/j.htct.2021.07.001

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