Ensinando o Atleta a lidar com a Pressão

Carla Di Pierro, Psicologia

Publicado em 01/09/2021 - Atualizado em 28/11/2021



O esporte de alto rendimento, tem no nome seu objetivo: rendimento. O atleta e sua equipe precisam render vitórias, quebra de recordes, emoção para sua torcida e visibilidade para seu patrocinador e a performance do atleta é a única capaz de realizar tudo isso.

As cobranças pelo resultado são muitas e vêm de diferentes fontes desde o treinador, a torcida, o clube, os dirigentes, o patrocinador até a família. Mas muitas vezes a maior cobrança vem do próprio atleta, que quer com todas as forças ser o melhor, que persegue obsessivamente o acerto e a perfeição e doa sua juventude para isso.

Sim, os atletas são jovens, na maioria das vezes começam crianças, e na adolescência estão completamente envolvidos nas idas e vindas dos treinos, na alimentação regrada e no sono contado. Viajam, mas para competir e relaxam num único day off, que às vezes acontece mensalmente, mas na maioria dos casos descanso mesmo é nas férias (uma semana no ano está bom?) antes da pré- temporada, momento que começa a preparação para o início de mais um ano em busca por resultados melhores.

Após investir toda a adolescência, fase de transição na nossa cultura para preparar melhor a criança para enfrentar as responsabilidades da vida adulta, o atleta chega a categoria profissional. É quando a cobrança aumenta. Já que ele é adulto e profissional, deve estar preparado para enfrentar qualquer adversário, obstáculo ou pressão de onde vier, certo?

Sim e não, eu explico. Sim, porque o atleta profissional deve ter a habilidade de lidar com pressão, esta habilidade é determinante para que ele possa colocar em prática sua técnica na hora da competição, para equilibrar seus ânimos quando é exigido pela torcida ou quando é desafiado pelos seus adversários e para lidar com a dor e cansaço promovidos pela dura rotina de treinamento.

E não, porque o atleta apesar de ser exigido como alguém que deve estar preparado para tudo o que vier não é uma máquina de resultados, é uma pessoa que tem uma história, e que dedicou boa parte dela ao esporte.

A maioria desconhece a rotina do atleta de alto rendimento pois o que mais aparece ao público em geral são apenas algumas das consequências da alta performance: fama, vitória e sucesso. Por traz destes resultados há também fracassos, tentativas e erros, e um processo longo, desenhado através de uma história que começou a ser escrita quando ele foi concebido e mais tarde quando a criança ou o adolescente escolhe por uma modalidade esportiva, ou quando escolhem por ele, já que na maior parte das vezes a escolha dos pais e o apoio deles é decisivo para que ele se torne um atleta.

É partir do momento da escolha pela vida de atleta que a criança e o adolescente se envolvem com uma vida diferente dos colegas, mais restrita aos treinos e ao ambiente da modalidade escolhida e abdica de uma vida social “normal”.

Para qualquer pessoa desenvolver qualquer habilidade ela precisa de treino, e isso é uma das coisas que difere as pessoas comuns dos atletas. Além do que chamam de talento, os atletas precisam treinar duro e por isso treinam muito desd cedo e isso os faz diferente. Mas o treino físico desenvolve a habilidades físicas, e o treino técnico as habilidades técnicas, e o que desenvolve a habilidade de enfrentar pressão? E de solucionar problemas?

Para enfrentar pressão precisamos lidar com os sentimentos e as emoções que ela provoca, pensar, raciocinar e decidir como enfrentá-la e isso também precisa de treino. A resolução de um problema não se dá apenas através do pensamento ou raciocínio internamente, ela é um processo e ocorre a partir de uma aprendizagem. Aquilo que aprendo em uma situação anterior posso usar, em parte, o que funcionou para resolver um novo problema. Sendo assim a resolução de problemas não é interna e nem aleatória, ela depende de uma história de aprendizado do atleta, ninguém neste caso pode fazer por ele.

Muitas vezes focados no treino físico, técnico e tático, o atleta pouco desenvolve e pratica suas habilidades psicológicas e sociais. Ele tem pouco tempo para gastar com este aprendizado que só acontece quando ele se expõe nas relações com o mundo, quando precisa decidir, opinar, quando precisa se relacionar e olhar para si mesmo. Pra que gastar tempo com isso se ele pode treinar?

Porque observar sensações e sentimentos e saber o que fazer com eles, é treinar autoconhecimento, é um treino para a vida. Quanto mais o atleta se conhece mais sabe o que quer de verdade e aonde quer chegar, mesmo que isto custe abdicar de algumas coisas. E treinar como resolver problemas é ganhar autonomia emocional, é ter liberdade de escolha, ter opinião e força para tomar decisões e enfrentar a cobrança venha de onde vier.

Esta não é uma lição de casa apenas para os atletas, mas para todos envolvidos com o esporte que acompanham atletas no dia-a-dia e o ajudam na construção desta história. São estas pessoas envolvidas no desenvolvimento do atleta, os pais, técnicos e profissionais do esporte, os maiores facilitadores desta aprendizagem, mas para que aconteça precisam estar abertos a ela.

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