A Vida nas Redes Sociais x Realidade

Dra. Ghina Machado , Psicoterapeuta

Publicado em 18/02/2021 - Atualizado em 26/05/2022



Somos seres sociáveis, precisamos estar conectados com o outro, seja por meio do mundo digital ou presencial. O fenômeno das redes sociais proporcionou novas possibilidades de viver, diminuiu as distâncias, facilitou a troca de conhecimentos, transformou a comunicação e a forma de nos relacionarmos, impactando na Saúde Mental e na subjetividade. A comunicação pelas redes sociais favoreceu nos apresentarmos do jeito que gostaríamos, uma vez que as informações compartilhadas podem ser controladas, editadas e deletadas, diferente do que acontece em um encontro presencial. Portanto, as redes sociais nos permitem ocultar quem somos, revelar quem gostaríamos de ser e praticar fantasias, que de outro modo não poderiam ser realizadas. Ainda assim, mesmo ao editarmos a própria vida, são as nossas impressões e projeções colocadas ali.

Antes da existência das redes sociais, ocorriam idealizações de contos de fadas estimuladas na infância e comparações com personagens de novela, mas sabíamos que se tratava de uma ficção. Hoje, as redes sociais nos mostram pessoas comuns aparentemente felizes ao postar fotos de viagens, uma família invejável, o trabalho dos sonhos e dicas de como ter uma vida perfeita. Por consequência, aumentou-se a comparação, a autocobrança, a necessidade de sermos reconhecidos, o medo do cancelamento, e junto, maior chance de desenvolver sintomas de ansiedade, depressão, dependência, baixa autoestima, entre outros; claro que é preciso considerar os fatores genéticos e aspectos individuais. As pessoas se mostram tão conectadas com o mundo digital que muitas tem dificuldade em estar no momento presente, manifestam medo de estar perdendo algo, associado a sentimentos de inveja e necessidade constante em se atualizar nas redes. A questão é que ao invés de viverem a experiência, as pessoas a transformam em registros, que dificulta a vivência pessoal e torna toda experiência intermediada pelos aparelhos eletrônicos. Logo, existe mais proximidade com quem está longe e menos com quem está perto.

Por outro lado, apesar das redes sociais trazerem prejuízos, são capazes também de promover muitos benefícios. Elas são fontes de informações, proporcionam novas modalidades de trabalho e diferentes possibilidades de interação, democratizam opiniões e fornecem conteúdos significantes para aumentar nosso repertório e aprendizado. O grande diferencial é qual conteúdo escolhemos consumir e como interagimos nesse meio. As redes abrem-se às pessoas como cenário possível de múltiplas atuações, facilitadas pelo anonimato. A hiperexposição nos distancia da realidade do que somos e muitas vezes a vida do outro e a presença de informações nos distrai de nós mesmos. É comum a busca por preencher um “vazio” ao conectar-se o tempo todo com as redes sociais com objetivo de evitar a introspecção, que é fundamental para a construção da identidade e do autoconhecimento.

Não existe um modelo correto de relações, é possível ter afeto, se conectar e estabelecer vínculos saudáveis por intermédio do mundo virtual. Estes constituem um canal diversificado, em que ter tolerância com o diferente, identificar e lidar com os sentimentos gerados a partir do conteúdo consumido é imprescindível para uma boa saúde mental. Quando trabalhamos o autoconhecimento, dificilmente ficamos vulneráveis às críticas e a extrema felicidade mostrada nas redes. Diante disso, é importante destacar que nós não nos resumimos às redes sociais e não devemos basear a vida em busca de reconhecimento por meio dos likes. Nós quem damos sentido à rede social e podemos escolher como usufruir dessa ferramenta.

Cabe a reflexão sobre o que buscamos nas redes sociais e qual o uso que fazemos disso. O grande segredo é utilizá-las de forma consciente e ao nosso favor!  O mundo virtual pode ser usado como lugar de expressão de conflitos mal resolvidos, assim como servir de auxílio ao possibilitar a elaboração subjetiva, a prática de particularidades desconhecidas do eu e o desenvolvimento de habilidades sociais. É de nossa responsabilidade estarmos conectados com nós mesmos para poder nos conectar de maneira saudável com o outro e redescobrir a possibilidade de existir sem qualquer uma das máscaras das redes sociais. O mundo mudou, mas tem algo que permanece e as redes sociais são incapazes de modificar, o fato de sermos humanos! No mundo virtual ou presencial, não deixamos de ser humanos e até por isso sentimos inveja, ódio e alegria diante das redes.

Por um uso mais consciente das redes sociais!

Deixe um comentário

Comentários:

COPYRIGHT

© BrazilHealth

LINKS IMPORTANTES

Home

Heads

Vídeos e Artigos

Médicos e Outros Profissionais

Parceiros

Contato