Musicoterapia para todos

Luana Caetano , Terapia Ocupacional

Publicado em 16/05/2024 - Atualizado em 25/07/2024



Criativa, curativa e conectiva: a musicoterapia é para todos

Sabe aquele conforto que sentimos depois de um dia longo e cansativo, quando ouvimos aquela música? E a euforia de ir ao show de seu artista preferido? Pular, dançar, cantar até ficar rouco e, mesmo com a possibilidade de dores musculares e exaustão depois, continuar sorrindo e animado dias a fio, compartilhando as memórias criadas com amigos, filhos e netos. Por outro lado, quem também nunca sentiu a felicidade dando lugar ao incômodo e até irritação depois de alguns minutos da queima de fogos no ano novo? A musicoterapia é uma ciência que, além de estudar os impactos dos fenômenos sonoros no ser humano, usa essas descobertas para melhorar nossa qualidade de vida.

O QUE É MUSICOTERAPIA?

A associação Americana de Musicoterapia (AMTA) a define como "uma intervenção musical clínica baseada em evidências que busca alcançar os objetivos do paciente através da relação terapêutica, abarcando uma variedade de queixas como promoção de bem-estar, manejo do estresse, alívio de dores, auto-expressão (sentimentos, comunicação), reabilitação física e neurológica, e tantos outros mais”, (American Music Therapy Association, 2005).

QUANDO SURGIU?

É possível que você, leitor, esteja pensando “nunca ouvi falar nisso!” De fato, a musicoterapia é uma ciência que está nos seus primeiros passos, apesar de existirem registros do século XVIII sobre práticas médicas com música. Se pensarmos pelo ponto de vista cultural, os processos de cura pela música são tão antigos quanto a existência da vida humana, como por exemplo em rituais indígenas. O processo musicoterapêutico é dinâmico e prático. É habitar um espaço de criatividade, de reflexão, de liberdade, onde por meio da criação ou reprodução musical, tocar instrumentos, cantar, dançar ou usar brincadeiras e jogos musicais, a criança aprende, o adulto se liberta e o idoso se reencontra, tudo isso sem a necessidade de conhecimento musical prévio.

PARA QUE SERVE?

Independente do seu objetivo ao buscar atendimento musicoterapêutico, o aumento da qualidade de vida é inevitável. Pense numa festa sem música, um casamento sem a marcha nupcial ou a música dos noivos, até mesmo um enterro sem alguém citar a música preferida do ente querido; não existe vida humana em sociedade sem som.

Música faz as pessoas felizes e muda os ânimos de qualquer ambiente. Desde sempre a música é indispensável em nossos rituais sociais, religiosos e medicinais. A musicoterapia veio para confirmar que sim, música melhora nossa saúde mental com uma série de reações químicas e biológicas do nosso organismo, como a elevação dos níveis de serotonina, dopamina, oxitocina e até adrenalina na corrente sanguínea nos deixando mais alerta e ativos, aumentando sensações de felicidade, amor, realização, relaxamento e diminuindo o estresse, a ansiedade, a tristeza e dores. Nosso físico naturalmente se conecta com melodias e ritmos, entrando em consonância com o som que nos atinge. Mas talvez o papel mais importante que a música desempenha é o de unir as pessoas, sendo uma grande facilitadora de conexões.

QUEM PODE SE BENEFICIAR DA MUSICOTERAPIA?

O mundo moderno e conectado nos gera dores e angústias onde deveríamos ter praticidade e diversão. O Brasil é o país com mais pessoas ansiosas no mundo: 9,3% da população de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). Rotinas exaustivas e a necessidade de manter a aparência de uma vida perfeita nas redes sociais levou o adulto brasileiro a adoecer. Por isso, dentro do contexto terapêutico, quando um paciente idoso reabilita seus movimentos pós AVC dançando ao som da Bossa Nova, Tropicália ou Jovem Guarda, a felicidade pelas memórias sonoras dessa juventude alegre, dançante e bem menos difícil toma conta do ambiente, facilitando e acelerando o processo terapêutico.

A intervenção sonora na terapia de pessoas atípicas também tem se mostrado um grande trunfo, principalmente durante a infância. Por sua abordagem naturalmente lúdica e divertida, a musicoterapia facilita o engajamento da criança no processo terapêutico, e a partir disso vemos muitas crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Síndrome de Down, Paralisia Cerebral, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Altas Habilidades e Super Dotação (AH/SD), entre outros, não só superando suas dificuldades e barreiras comportamentais, mas em muitos casos também descobrindo talentos que podem se tornar uma ocupação profissional no futuro.

Por trabalhar habilidades artísticas e simbólicas, lógicas e matemáticas, o cérebro de uma criança pequena que está em contato com a música, seja através da terapia ou aulas de musicalização, desenvolve um número maior de conexões neuronais, fazendo com que o processo de alfabetização e aprendizado tradicional no ensino regular seja facilitado. Os ganhos motores também são muitos: uma criança que brinca de estátua ou dança das cadeiras vai ter um conhecimento superior de seu esquema corporal e força física, por exemplo.

A MUSICOTERAPIA É RECONHECIDA PELO SUS?

A musicoterapia no Brasil atua desde os anos 70 na promoção e prevenção de saúde, mas só no último mês de abril, foi finalmente reconhecida como parte da área da saúde, equiparando-se a ciências como Psicologia e Fonoaudiologia. Desde 2017, o SUS oferece serviços de musicoterapia dentro do Programa PICS – Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, com atendimentos em grupo para diversas finalidades e faixas etárias, dentro dos hospitais e postos de saúde, visando o aumento no bem-estar e qualidade de vida da população.

No eixo de reabilitação neurológica e física, é possível encontrar atendimentos de musicoterapia nos CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), nos CER (Centro Especializado em Reabilitação), na Rede Lucy Montoro no estado de São Paulo, coordenado pelo HCFMUSP, e diversos outros locais e ongs de parceria público-privada.

Ao todo, o musicoterapeuta está apto para realizar mais de 40 procedimentos cadastrados no SUS. Para se tornar um profissional musicoterapeuta é necessário ser graduado ou pós-graduado em instituições reconhecidas pelo MEC e pela UBAM – União Brasileira das Associações de Musicoterapia. Se você procura um profissional, entre em contato com a associação de musicoterapia do seu estado, elas garantem profissionais aptos a usar o som como intervenção terapêutica.

Desde o momento que nosso sistema auditivo começa a funcionar no útero até o último batimento do nosso coração, a vida está repleta de sons, dentro e fora do corpo. Cuidar das nossas sonoridades, produzidas e recebidas, é tão importante quanto cuidar da alimentação, e nós, musicoterapeutas, estamos prontos e ansiosos para te ajudar a navegar um mundo mais feliz e musical!

Luana Caetano APEME/SP 1-190151
Musicoterapeuta
Especializada em ABA e Musicoterapia Neurológica
Extensão em Musicoterapia Naturalistas

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