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Diagnóstico Obesidade: Quando mais cedo, melhor!

Dra. Maria Edna de Melo, Endocrinologista
Publicado em 13/10/2017 - Atualizado em 22/09/2018



Obesidade: doença negligenciada, paciente discriminado.

É rotina para quem trabalha nos raros serviços públicos que atendem pacientes com obesidade no Brasil receber solicitações para que familiares ou amigos sejam atendidos. São crianças, adolescentes, adultos e idosos. O que essas solicitações diferem de muitos encaminhamentos médicos é que esses pacientes geralmente não possuem contraindicação para tratamento medicamentoso e/ou cirúrgico, o que ocorre em grande parte dos encaminhamentos médicos. O que fazer com um paciente cardiopata aos 70 anos de idade e índice de massa corporal (IMC) de 40 kg/m2 que não responde às orientações para mudança de estilo de vida e precisa perder peso para investigar uma suspeita de câncer em um exame de ressonância magnética?  Outras situações semelhantes são comuns: pacientes com obesidade que  precisam perder peso para fazer radioterapia, fechar colostomia, realizar exames de imagem (os aparelhos geralmente possuem limite de peso) ou realizar procedimentos nos quais a gravidade da obesidade pode implicar em maior risco ou dificuldade operatória, e aqui inclui-se também a cirurgia bariátrica em pacientes extremamente obesos.

O atraso no encaminhamento decorre da ausência de diagnóstico: apenas 10% dos pacientes com obesidade grau 1 são diagnosticados. Mesmo nos pacientes com superobesidade  (IMC ³ 50 kg/m2) o diagnóstico óbvio é feito pelo médico em apenas 53% dos casos. Realidade que precisa e deve ser mudada, conforme conclusão de estudo recente que avaliou dados de mais de 68 milhões de indivíduos analisando a prevalência e o impacto da obesidade na mortalidade e incapacidade em todos os países do mundo: é preciso monitorar o IMC e intervir já quando o paciente apresenta sobrepeso.

Não identificar a obesidade no início permite o agravamento da mesma e o aparecimento das diversas comorbidades, dentre elas o prejuízo psicológico. Não é novidade para ninguém que crianças e adolescentes com obesidade são constantemente vítimas de bullying e preconceito, não apenas por outras crianças, mas de forma ignorante, porém não menos cruel, também por familiares e profissionais de educação. Mas, o que pouca gente sabe é que os estudos mostram que a qualidade de vida dos portadores de obesidade na infância é muito pior que a daqueles que possuem doença hematológica, como leucemia. A obesidade não apenas reduz a expectativa de vida, mas também piora a qualidade de vida.

Alguns pacientes são orientados a não se preocuparem com o peso quando não apresentam exames alterados, mas as pesquisas mais recentes vão contra essa recomendação. Ou seja, é importante perder peso, sim! No entanto, uma perda de peso de 5 a 10% já traz benefícios, com redução ou melhor controle das comorbidades. Muitas vezes esse assunto não é abordado pelo receio de interpretações equivocadas de que isso seria preconceito com o paciente com obesidade, o que não é. Os profissionais da saúde precisam, sim, identificar e tratar a obesidade e nós profissionais especialistas, assim como todos, devemos respeitar o paciente, o próximo e a si mesmo. Ao olhar um paciente com obesidade grau 2, não julgue, pois ele pode já ter pesado mais e ter sua saúde muito melhor agora.

É sabido que médicos com obesidade fazem menos diagnósticos de obesidade em seus pacientes, assim como aqueles que não praticam atividade física incentivam menos os seus pacientes a praticarem. Talvez a complexidade da fisiopatologia da obesidade, o seu caráter crônico recidivante e, principalmente, a falta de conhecimentos específicos sobre a doença por parte de muitos, favoreçam que pacientes sejam vítimas de omissão e preconceito. O investimento em pesquisas sobre obesidade vem se intensificando somente nos último 20 anos e até então a visão simplista predominava, a visão de que o paciente desenvolve a doença porque ele come demais, o que decorreria de “falta de força de vontade” e, pasmemos: “falta de vergonha”. Hoje sabemos muito mais sobre a regulação do balanço energético e mais ainda temos a aprender.

Diante dos dados atuais, a obesidade se estabelece como uma doença de prevalência sem controle. Os números sobem ano após ano. Mas como esses números vão cair? Espontaneamente não irão. São necessárias medidas de prevenção como, por exemplo, a implementação de rotulagem frontal de advertência em alimentos, o que facilitaria a identificação de alimentos não saudáveis. Não precisa ser especialista para concluir que o sistema de advertência informa de maneira óbvia sobre excesso de gordura, açúcar e sal. O mais complicado mesmo para entender é como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária vem discutindo esse assunto por três anos e, até a presente data, não temos nenhuma perspectiva para a implementação do sistema!

Se por um lado, as medidas de prevenção não acontecem, por outro, a assistência aos pacientes com obesidade também precisa evoluir muito. O Sistema Único de Saúde atualmente disponibiliza cirurgia bariátrica, o que ocorre fora da resolução do Conselho Federal de Medicina e da portaria do próprio Ministério da Saúde, ou seja, sem tratamento clínico prévio e, pior, sem disponibilizar polivitamínicos para os pacientes operados. Isso retrata o desenvolvimento de políticas públicas sem a participação dos especialistas que atendem os pacientes. É como fazer compras para uma casa sem morar nela: quem mora e cuida da casa sabe o que não pode faltar ou o que vai sobrar. Em recente audiência com o Ministro da Saúde Ricardo Barros, sociedades médicas solicitaram a incorporação de uma linha de atendimento ao paciente com obesidade no SUS, o que foi bem recebido pelo ministro e aguarda posicionamento para criação de um grupo de discussões pela equipe técnica do Ministério. Esperamos que, num futuro próximo, os 30 milhões de obesos adultos no país tenham uma opção de tratamento, conforme estabelecido em sua própria portaria.

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