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Cirurgia Minimamente Invasiva

Dr. Anuar Ibrahim Mitre, Urologia
Publicado em 12/06/2017 - Atualizado em 20/06/2018



Foi impressionante o progresso da cirurgia no século XX. O desenvolvimento de técnicas possibilitaram a realização de cirurgias consideradas até então impossíveis de serem feitas. Praticamente todas as cirurgias que fazíamos no final do século já foram propostas no seu início. O ensino da anatomia era muito rigoroso e longo, se extendendo por três anos da faculdade de medicina. Verdade que ainda é considerada uma das cadeiras mais importantes, mas tornou-se menos longo, particularmente pelo surgimento de outras áreas de conhecimento básico imprescindíveis à formação médica. Alia-se a isto, o surgimento de recursos para o ensino da Anatomia como exames de imagem riquíssimos de informações anatômicas de órgão isolados ou de sua relação com estruturas vizinhas (Ultrassonografia, Tomografia Computadorizada e Ressonância Magnética). Aliou-se à obtenção dessas imagens recursos de informática que representaram verdadeiros atlas digitais que podem ser observados de todos os ângulos. Claro que não substitui o estudo em cadaveres mas são aliados importantes no ensino da Anatomia.

Os conceitos de higiene, esterilização de materiais, cuidados de antissepsia dos médicos como a lavagem das mão e uso de luvas estéries e limpeza da região a ser operada, por mais óbvio que possa representar, trouxe uma redução significativa nas taxas de infecção que foi a grande limitação dos procedimentos cirúrgicos na primeira metade do século passado. Os antibióticos na segunda metade do século XX trouxe um novo alento e segurança à cirurgia. Foi a fase madura  da cirurgia  onde procedimentos de enorme complexidade tornaram-se possíveis. Cirurgias de toda espécie passaram a ser realizadas. Com a imunossupressão os tranplantes de órgãos passaram a ser feitos rotineiramente. Tranplantes de coração, rim, fígado para citar alguns deles e com resultados surpreendentemente melhores que os tratamentos até então utilizados. O desenvolvimento da microcirurgia agregou grande valor à cirurgia de reimplante de extremidades de enxertos vascularizados microcirurgicamente possibilitando reconstrucões de mamas em mastectomias por cancer e até transplante de face em traumas desfigurativos, além do tratamento de outras malformações congênitas complexas.

O surgimento e desenvolvimento da Anestesia e da Metabologia foram fundamentais para que se pudesse realizar cirurgias mais longas e complexas.

A admiração pelo cirurgião habilidoso e rápido (da fase sem anestesia ou da anestesia local) passou a ser substituído pelo cirurgião meticuloso e das cirurgias complexas, que requerem mais tempo para que sejam realizadas (na fase da Anestesia e Metabologia modernas).

Nas últimas décadas do século XX, com o desenvolvimento tecnológico e uso de lentes e câmeras o grande avanço da cirurgia passou pelos procedimentos endoscópicos por via natural ou por meio de orifícios (procedimentos laparoscópicos) aliados ou não a uma plataforma robótica onde se oferece a mesma cirurgia feita de maneira minimamente invasiva. As vantagens logo se tornaram evidentes por uma menor agressão física, menos sangramento e consequente menor taxa de transfusão de sangue, menos dor pós-operatória e uma convalescença mais curta e confortável, um retorno mais rápido às atividades rotineiras-profissionais e menos cicatrizes. Na década de 90 começou a ser utilizada para procedimentos mais simples e com o desenvolvimento dessa nova habilidade foi progressivamente sendo utilizada para procedimentos mais complexos como nefrectomia para transplante renal, prostatectomia radical para câncer de próstata localizado, cirurgia bariátrica, duodenopancreatectomia em cancer de pâncreas, só para citar alguns exemplos.

Como tudo que é novo provocou resistências e foi colocado em dúvida. Requer um novo aprendizado e nem todos cirurgiões experientes se dispuseram a aprender a cirurgia laparoscópica. Por tudo isto e por questão de reserva de mercado, a laparoscopia demorou muito para se desenvolver nos grandes centros acadêmicos. Cirurgiões convencidos da sua importância passaram a praticá-la em hospitais não universitários e sofrendo pressões de toda natureza. Atualmente a cirurgia laparoscópica é exigida em todos os programas de formação de cirurgiões.

Neste século o robô cirúrgico passou a ser integrado à cirurgia e principalmente na cirurgia laparoscópica possibilitando ao cirurgião operar de maneira mais ergonômica e confortável. Além da qualidade de imagem ser de altíssima definição e tridimensional, o cirurgião passa a trabalhar com quatro braços o que traz outras vantagens ao cirurgião como: câmera estática e feita pelo próprio cirurgião, apresentação auxiliar, além das duas mãos de trabalho com as extremidades de instrumentos mais delicadas, sem tremor e com mais movimentos que a mão humana. Os custos de aquisição e de manutenção desses equipamentos que possibilitaram a cirurgia minimamente invasiva e a curva de aprendizado ainda requer muito tempo e por isso torna imprescindível a cirurgia convencional em termos de saúde pública. Quero ressaltar que apesar das vantagens assinaladas da cirurgia minimamente invasiva, a cirurgia é exatamente a mesma feita com uma habilidade diferente. Ninguém vai deixar de se operar se não houver possibilidade de cirurgia minimamente invasiva. A saúde do paciente deve prevalecer. A necessidade de cirurgia deve sobrepor a discussão de cirurgia convencional ou minimamente inasiva.

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