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Práticas Esportivas nas Férias

Dr. Yuri Galeno, Endocrinologia
Publicado em 26/12/2017 - Atualizado em 27/05/2020



É comum os pais aproveitarem o início de ano e período de férias para matricular seus filhos em equipes de treino ou em colônias de férias que envolvem atividades esportivas. Se a criança já tem o hábito da prática esportiva ao longo do ano, ela provavelmente não terá dificuldades para se adaptar a estas novas demandas, porém crianças que não tem o hábito de se exercitar podem sofrer alterações agudas de ordem física, psicológica e metabólica que pode leva-las a ter alterações no hábito alimentar (desde aumento do apetite até anorexia), quadros de mudança de humor e ansiedade (por se depararem com um ambiente novo e competitivo ao qual não estão habituadas), alterações renais pela desidratação, alterações no sistema imunológico (ocasionando infecções de vias aéreas superiores), lesões osteo-articulares e musculares.

Como as crianças estão em fase de desenvolvimento, seus sistemas ósseos, musculares e hormonais não estão completamente desenvolvidos, consequentemente, deve haver uma adequação entre o nível de atividade física, o hábito alimentar e o grau de maturidade da criança. Mas, de modo geral, o próprio organismo faz essa regulação entre gasto energético e consumo alimentar.  As crianças mais jovens (entre 6 a 12 anos) tem uma característica interessante que as permite fazer atividades de alta intensidade e curta duração sem apresentar muita fadiga por utilizarem um sistema produtor de energia chamado de fosfocreatina (que é bem menos utilizado nos adultos) e que exige pouco consumo de oxigênio. À medida que crescem, elas passam a utilizar com mais intensidade o sistema aeróbico para produção de energia.

As alterações metabólicas geradas pelas atividades esportivas na criança vão depender também do volume (tempo de atividade física realizada) e da intensidade desta atividade física, pois quanto maior o volume e a intensidade, maiores serão as modificações metabólicas para suprir estas demandas. De um modo geral, atividades físicas de volume e intensidade leves a moderados (como uma partida de futebol ou uma brincadeira não competitiva numa piscina) geram discretos déficits calóricos sem maiores modificações hormonais, o que acarreta um aumento do apetite para suprir este déficit. Já exercícios muito demorados ou de alta intensidade (como longas trilhas ou competições) geram modificações mais pronunciadas do metabolismo, podendo ocasionar diminuições no apetite e déficits calóricos que se não forem devidamente corrigidos podem levar a mudanças de humor, infecções de vias aéreas e alterações musculares como fadiga e câimbras.

Recomendações:

A recomendação é que os pais estejam atentos a possíveis alterações no consumo calórico e na hidratação que podem ocorrer devido à modificação na rotina das crianças. De um modo geral, o déficit calórico gerado por atividades aeróbicas moderadas com duração de 1 a 2 horas varia de 300 a 600 kcal, o que é facilmente reposto acrescentando um lanche ao longo do dia em um horário que a criança não tinha o hábito de consumir nada, e/ou aumentando uma porção de cada alimento nas refeições principais.

Em relação à hidratação, basta pesar a criança no início e no final do dia, a diferença de peso provavelmente refletirá o déficit hídrico, pois a massa corporal sólida não costuma variar de forma tão aguda. Este déficit deve ser reposto imediatamente para evitar sobrecargas nos rins. Para cada 1g de peso perdido, os pais devem repor 1 ml de líquidos (se a criança perdeu 400 g ela deve repor 400 ml de líquidos) e no dia seguinte ela deve acrescentar os mesmos 400 ml a tudo que for ingerido para prevenir esta desidratação.

Não existe uma recomendação específica para prática esportiva de acordo com a faixa etária ou biótipo da criança. De modo geral, as crianças devem “experimentar” diversos tipos de modalidades e práticas esportivas, pois estão em pleno desenvolvimento das chamadas valências motoras (força, equilíbrio, elasticidade, potencia, hipertrofia e coordenação motora), e quanto mais variada for esta exposição maior será o desenvolvimento destas valências.

Em relação ao tempo de atividade física, seria recomendável que as crianças mantivessem o volume e a intensidade da qual já estão habituadas, não há problemas se a criança praticar a atividade duas vezes ao dia desde que este limite ao qual ela já está habituada seja respeitado. Caso a criança não faça atividade física, este início dever ser lento e gradual para permitir a adaptação corporal a esta nova demanda.

As crianças têm um metabolismo extremamente acelerado e de um modo geral, conseguem com uma boa noite de sono se recuperar e ficarem prontas para outro dia de aventuras. Naturalmente, a necessidade de sono irá aumentar para permitir a recuperação física adequada logo à recomendação é que se mantenha o horário habitual de despertar, mas se antecipe o horário de inicio do descanso, pois o sono nas primeiras horas da madrugada libera uma série de hormônios que são favoráveis para a recuperação física.

De modo geral, não há necessidade de acompanhamento médico para crianças que irão iniciar um programa de exercícios durante as férias. As únicas exceções seriam as crianças que já apresentam alguma condição patológica de base, tal como obesidade, diabetes, hipertensão, cardiopatias, asma, problemas osteo-articulares ou qualquer condição que possa ser agravada pela prática esportiva.

Os pais podem ficar tranquilos, pois o corpo das crianças é extremante adaptável e uma infância saudável deve incluir bastante atividade física. A realidade que vemos nos consultórios é exatamente a oposta: nossa maior preocupação enquanto médicos endocrinologistas não é o excesso de atividade física e sim a falta dela!

Portanto se forem seguidas as recomendações sobre hidratação, se forem corrigidos os possíveis déficits calóricos ocasionados pela atividade física e se as crianças mantiverem uma dieta equilibrada certamente elas poderão desfrutar de todos os benefícios que a atividade física pode lhes trazer sem se preocupar com maiores problemas.

Dr. Yuri Galeno – Endocrinologista, presidente da Comissão para Estudo da Endocrinologia e do Esporte da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

1-The elite young athlete: strategies to ensure physical and emotional health. Todd M Sabato, Tanis J Walch, Dennis J Caine. Open Access Journal of Sports Medicine 2016:7 99–113

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